A revista Época desta semana, edição 419, trás a reportagem "De mesa ou portátil?", onde recomenda evitar "os aparelhos baratos que usam o sistema operacional Linux, a menos que você seja um nerd que curta resolver problemas em vez de usar o micro".
Costumo fazer objeções aos argumentos baseados no menor custo dos softwares livres e nas vantagens do acesso aos seus códigos fontes para incentivar sua adoção. Primeiro porque estou convencido de que a migração para GNU/Linux envolve investimentos. No caso de uma empresa, cabe analisar o retorno esperado sobre o investimento, determinar o payback, fazer análise de sensibilidade, estimar os custos e benefícios não quantificáveis, enfim, todas essas coisas do domínio da Finanças consideradas antes de qualquer tomada de decisão. Segundo porque as vantagens do acesso ao código fonte dos aplicativos podem ser exploradas por poucos, e entre esses poucos não se incluem os simples usuários: eles não possuem conhecimentos para tal, se possuíssem não seriam simples usuários, seriam analistas, desenvolvedores, programadores! E vale dizer, muitos analistas, desenvolvedores, programadores, usuários avançados de software livre, nunca contribuíram com uma linha de código sequer para os aplicativos de código fonte aberto que utilizam; nem nunca os estudaram; aliás, da mesma forma como nunca se interessaram em conhecer ou fazer a manutenção da mecânica de seus carros, a despeito do livre acesso ao que está sob o capô!
Isso não implica concordar com a recomendação do autor da reportagem. O GNU/Linux está pronto para desktops sim! Sejam corporativos, sejam domésticos! Se a migração de softwares proprietários para softwares livres não acontece de maneira mais rápida, credite-se às questões humanas, como pré-conceitos e paradigmas, em que parecem ter se baseado o autor da reportagem, e não às tecnológicas, como disponibilidade de drivers, disponibilidade de softwares e incompatibilidade com legados, as quais constituem cada vez mais exceções e não a regra.
Infelizmente associou-se software livre com software grátis, com produto "alternativo", hippie, clones grosseiros de softwares proprietários, eternos betas daqueles comercializados em caixinhas, como associou-se os seus usuários a trogloditas tecnológicos que interagem com o computador através de "telinhas pretas", terminais consoles, os quais, conquanto presentes em outros sistemas operacionais, cumprem neles quase que exclusivamente ao propósito de testemunhar sua evolução, mais ou menos como o cóccix nos seres humanos a lembrá-los do rabo que um dia tiveram.
Ignora-se a maturidade das soluções opensource disponíveis, cujas funcionalidades e recursos os tornam superiores aos seus equivalentes proprietários. Tome-se como exemplo o Firefox. Seu mecanismo "tabbed browsing" oferece um modo eficiente de navegar na Internet, permitindo que múltiplas páginas web sejam visualizadas em uma mesma janela, enquanto seu suporte a extensões tornam-o virtualmente capaz de qualquer coisa, de reproduzir áudio em diferentes formatos (FoxyTunes), gerenciar downloads (FireFTP) a validar documentos web (HTML Validator). Por seu turno, a suíte de escritório OpenOffice compacta os documentos ao armazená-los e utiliza o padrão aberto XML, o que reduz o tamanho dos arquivos salvos e assegura sua disponibilidade no futuro, respectivamente.
Se usuários avançados de GNU/Linux utilizam terminais consoles, deve-se à comodidade e produtividade que estes asseguram em determinadas atividades, como manter usuários, ou à necessidade de economia de recursos exigida por certos ambientes, como servidores. Porém existem interfaces gráficas, como Gnome e KDE, que tornam a experiência de usar o GNU/Linux semelhante a que estão acostumados os usuários de outros SO. Mais, a aparência de tais interfaces podem ser completamente ajustada às preferências dos usuários, tornando a experiência com o GNU/Linux fácil e intimista.
Diferentemente do que afirma a reportagem, devemos sim considerá outras opções de sistemas operacionais além daquele em que, por falta de segurança e robustez, temos que instalar como primeiros softwares um firewall e um anti-vírus! Ninguém está mais sujeito a surfar na Internet ou ler seus e-mails com medo. Qualquer um pode desfrutar da tranqüilidade que inspiram os desktops rodando GNU/Linux!
Muitos artigos e guias orientam a migração e muitos cases de sucesso podem inspirar uma decisão. Em ambientes domésticos, penso que o melhor é começar devagar, substituindo os softwares proprietários pelos software livres equivalentes. Um bom começo são aqueles que integram o enxoval de softwares compilados pela equipe do The Open CD. São softwares populares em suas categorias, em versões para o ambiente proprietário que atualmente domina o mercado de PCs. Para ambientes corporativos, sugiro dois guias de migração que auxiliam a tarefa de planejamento: o do governo brasileiro, Guia Livre, e o europeu, o Documentation on Open Source Software (OSS).
E se você já é usuário de software livre, faça a sua parte! Apareça! Aja! Dê exemplos! Só use software proprietário quando não houver similar livre ou onde não puder; compareça a eventos, crie eventos, incentive eventos: no trabalho, na faculdade, no condomínio, na igreja; ajude aquele que queira migrar: convide-o para ir até sua casa ou disponha-se a ir à casa dele ensiná-lo os primeiros passos; doe CDs de seu "sabor" Linux preferido; carregue sempre consigo um LiveCD de alguma distro de visual caprichado (que tal o Kurumim?), para não desperdiçar a oportunidade de apresentar e demonstrar o GNU/Linux para alguém; se você produz documentos, informe no rodapé: produzido com software livre! Tente algo diferente.
Linux inside!