Escola da Ponte: você matricularia seu filho numa escola assim?

Filed Under (Educação) by Antonio Passos on 28-06-2007


A Escola da Ponte fica em Vila das Aves, a cerca de 30Km da cidade do Porto, em Portugual. Seu projeto educativo está disponível em (http://www.eb1-ponte-n1.rcts.pt/documen/projecto.pdf).

O educador Rubem Alves escreveu uma série de crônicas sobre a Escola da Ponte entre Maio e Junho de 2000 para o jornal Correio Popular de Campinas. Essas crônicas resultaram no livro "A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir", publicado pela Papirus Editora, e podem ser encontradas entre os textos e artigos do Programa Sua Escola a 2000 por Hora, do Instituto Ayrton Senna.

Na última das crônicas, Rubem Alves descreve a Escola da Ponte como "... um único espaço, partilhado por todos, sem separação por turmas, sem campainhas anunciando o fim de uma disciplina e o início da outra. A lição social: todos partilhamos de um mesmo mundo. Pequenos e grandes são companheiros numa mesma aventura. Todos se ajudam. Não há competição. Há cooperação. Ao ritmo da vida: os saberes da vida não seguem programas. É preciso ouvir os "miúdos", para saber o que eles sentem e pensam. É preciso ouvir os "graúdos", para saber o que eles sentem e pensam. São as crianças que estabelecem as regras de convivência: a necessidade do silêncio, do trabalho não perturbado, de se ouvir música enquanto trabalham. São as crianças que estabelecem os mecanismos para lidar com aqueles que se recusam a obedecer às regras. Pois o espaço da escola tem de ser como o espaço do jogo:o jogo, para ser divertido e fazer sentido, tem de ter regras. Já imaginaram um jogo de vôlei em que cada jogador pode fazer o que quiser? A vida social depende de que cada um abra mão da sua vontade, naquilo em que ela se choca com a vontade coletiva. E assim vão as crianças aprendendo as regras da convivência democrática, sem que elas constem de um programa…".

De Janeiro a Março de 2007 tive o prazer de participar do curso online "FAZER A PONTE", promovido pela Aquifolium Educacional. O "FAZER A PONTE" é um curso online, conduzido pelo Prof. Wilson Azevedo, do qual participam interagindo com os alunos diretores, professores e alunos da Escola da Ponte.

Neste post reproduzo um dos muitos correios trocados entre os participantes do curso "FAZER A PONTE". Neste correio em particular, a aluna Constança Teresa discorre sobre diferenças existentes entre a "Escola da Ponte" e as assim chamadas escolas "tradicionais".

Quando um aluno sai da Escola da Ponte e integra uma escola de ensino considerado "tradicional" a principal diferença que sente é na relação "Professor  Aluno", embora o método de ensino seja também uma das desigualdades entre estes dois ensinos.

Enquanto que na Escola da Ponte há uma relação quase familiar entre a comunidade escolar, partilhando os problemas, as dificuldades tanto a nível educativo, como a nível pessoal, nas outras escolas esta relação está quase extinta. O professor é tido como uma entidade de respeito absoluto, inquestionável, com o qual seria impensável muitas vezes trocar experiências. A aula em si não deixa tempo nenhum para conversas alheias sem que isso prejudique o cumprimento do "Programa educativo", da mesma forma que quando esta termina com o som de uma campainha (pequeno instrumento que faz lembrar os Homens de que parte de si é animal e que, como tal, não tem capacidade suficiente para cumprir os seus horários sem que, para isso, tenha de ser constantemente avisado!), o professor se desloca para uma sala "interdita" a alunos e estes para o recreio, não havendo espaço para a confraternização, tão característica da Escola da Ponte.

Quanto ao ensino, tenho a dizer que a adaptação não é de todo difícil, isto porque a vida é-nos facilitada pelo professor que todas as noites tem o trabalho de preparar as aulas de forma a que ao serem expostas não possam restar dúvidas quanto à matéria leccionada, Desta forma os alunos nada mais têm a fazer senão limitar-se a copiar o que o professor escreve no quadro e, como é óbvio, tentar compreender o que está a estudar. Caso sinta que gostaria de aprofundar o seu estudo, esta situação é-lhe negada, restando-lhe apenas duas opções: estudar por si próprio ou esperar pelo seguinte ano lectivo! Isto nunca aconteceria na Escola da Ponte, uma vez que negar o aprofundamento do conhecimento não é, de todo, uma boa filosofia!

Um dos muitos aspectos positivos de ter estudado na Escola da Ponte (eu sei que estou a ser muito parcial, contudo depois de ter tido a graça de fazer parte de tão maravilhoso projecto, não posso deixar de o vangloriar!) é a autonomia que esta nos proporciona. Noto que, em relação aos meus colegas, tenho mais facilidade em realizar trabalhos de grupo, estudar individualmente e, caso surja alguma dúvida, procurar resposta para ela sem que para isso tenha de recorrer imediatamente ao professor, sendo, desta forma, muito menos dependente do mesmo quando comparada com eles.

A maior diferença que sentimos é mesmo nos "Testes". Não pelo que são, mas pelo próprio nome. Só de o ouvirmos "trememos por todos os cantos"! O problema reside no facto de estes se realizarem quer os alunos estejam preparados quer não. Na Escola da Ponte os "testes"  denominam-se "avaliações" e são encarados de forma mais natural sem tanto stress nem mesmo "pressão". A estes não são atribuídas cotações que são depois expostas para que toda a escola tome conhecimento da inteligência e dificuldades de cada um!

A minha fase de adaptação ainda está no princípio devido às saudades e dificuldades em aceitar que a Ponte apenas reside no meu coração. Quanto ao resto não há nada mais fácil acreditem!

E então? Você matricularia seu filho numa escola assim?

Veja uma palestra do professor José Pacheco no post A Escola de Tempo Integral: a experiência da Escola da Ponte.

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